o dia começa não querendo ser apenas um e nós sequer levantamos da cama. o sol nasce especialmente para despertar os nossos corpos e eu, muito sonolenta, estico o meu braço esquerdo em direção a janela e deixo um feixe de luz entrar. o olho como uma mãe olha o seu filho dormir. é assim que gosto de tê-lo: desprotegido e encolhido em meu ventre. ele acorda e se desfaz de sua pose fetal, me diz bom dia e beija a ternura dos meus dedos. eu só sei pensar em amor. sorrio suavemente pensando na acentuação da minha felicidade e o agarro com as duas pernas. o contorno do meu corpo sobre ele. o meu corpo ainda para ele. todos os meus dias poderiam ser assim - se eu realmente quisesse, seriam... eu só sei falar de amor e está tudo ainda tão preso dentro de mim.
quando ele me fala sobre tato eu imagino quão trágica, quão usual eu devo ser - ou eu aprendi a ser - pois quando ele me envolve com os braços, a minha pele arrepia como se a sensação fosse de última vez.
- tenho eu a consciência dos fatos, mas não falo em sentido algum. as distorções do tempo tomam conta do que deveria ser. me silencio ao seu olhar. estou confortável a ideia de autoabandono.

que chegue o inverno.

quando eu era criança, queria abraçar o mundo com meus pequenos braços e sentir o calor das coisas. meu pai sempre me dizia que eu poderia ser o que eu quisesse. foi aí que tomei a grande decisão: ateei fogo às vestes.


pela primeira vez não me faço sua.
 

 
a verdade é que eu já sabia de tudo. o tapa na cara, eu já sentia minha pele arder alguns dias antes. mas como de costume, tapei os olhos e joguei o corpo. esperei pelas palavras tão confusas que vezenquando saltam das bocas, mas o que veio foi o inaudível. não pude captar de primeira. então comecei a roer as unhas, a balançar as pernas, a torcer guardanapos. that's me, babe. e mesmo assim nenhuma mensagem. tudo isso já era bem óbvio, quer dizer, o suficiente. mas eu, com a minha mania de significados e prolongações, queria espremer tudo, chupar o bagaço, ver o oco. pisciana confusa, me disseram em voz alta. pisciana neurótica, eu disse em voz baixa a mim mesma. apaguei um por um, como o de costume, aí corri sem deixar nenhum sinal. tive uma emoção como todas as outras e só.
o balcão é o espaço mais democrática que pode haver em um bar. é onde você pode chegar em sua qualidade seule contre tous e encarar a noite chopp atrás de chopp sem ser julgado por sentir o peso das coisas no fim do dia.
encaramos diretamente a pupila do outro
e nem demos conta do resto.
depois não foi muito,
talvez o bastante
(e não é isso que o fará mais bonito).

a verdade é que eu poderia ter caído nessa contigo, boy
fato incontestável.
mas eu não sei bem ao certo
em que momento me veio a ideia de tirar o corpo fora.
como um estalo,
deixei passar
longe de mim.

as coisas que se perdem
(aqui de dentro)
são cada vez mais minúsculas
que eu nem sei se convém correr atrás.

"o valor era baixo",

ele me falou.
eu não sei lidar com a falta. sorte  sua que existe sozinho e independe do calor do outro. tenho contado as vantagens e até agora não há um sopro ao meu favor. digo que acho isso um tanto incrível e vou arrancando sutilmente com os dentes o esmalte que me resta nas pontas dos dedos, enquanto lá de cima você me encara com tamanha maestria. gosto de pensar que eu era suave assim , que aqui existia algo de bom, que esses dias de cão só fazem parte de uma fase e que no fim das contas tudo tende voltar ao normal mesmo. novos dias virão, eles me dizem, mas é como se o tempo tivesse passado rápido demais sobre mim e sem dó. hoje recuso-me a acreditar. coloco a água no bule e remeto-me a consolos de mamãe, às vezes uma gota se divide em duas, e essas deslizam todo um caminho diferente para se reencontrar somente no final. meio cabisbaixa começo a rir sozinha. entendo que por medida de proteção ela não terminou o óbvio, e por tantas vezes essas mesmas gotas simplesmente vão para o ralo. simples assim, ela diria, e sem delongas.

há de se conformar,
meu amor
uma obra do destino
e o reflexo no espelho
para que não me deixe nunca mais.


à vezes penso o que teria acontecido comigo se aquilo que chamo de "minha vida" tivesse tomado um outro rumo, talvez eu nem estaria aqui, talvez eu não me resumiria a isso, talvez a gente nunca teria se encontrado. eu nunca tocarei a outra margem, mas carregarei o peso dos seus olhos sobre mim quando as coisas complicarem, e isso, talvez, é o que me dói mais. por essa razão, eu estou aqui  em teste.


pouco me importa os cães lá fora.
o que me faz correr é sempre o mesmo,
e independente do que for acontecer, eu cuido do meu.
cuidado.


não espero nada de ser tudo isso aqui a cada dia e sempre.

(e já não me resta muita coisa a fazer)

Desde que nos separamos, acrescentou de repente, forçando ou buscando um tom natural — desde que nos separamos fui para a cama com dois homens. Eu não estive com nenhum, respondi, fazendo graça. Então você não mudou muito, disse ela, rindo. Mas estive com duas mulheres, disse eu. A verdade é que foi só uma. Menti, talvez para empatar. E no entanto não pude levar o jogo adiante. Só a ideia de te imaginar com alguém é insuportável, disse eu, e foi complicado, depois, preencher aquele silêncio.

Eu me lembro de quando ela se foi. Supõe-se que seja o homem a deixar a casa. Enquanto ela chorava e empacotava suas coisas, a única coisa que me ocorreu dizer foi esta frase absurda: Supõe-se que seja o homem a deixar a casa. De alguma maneira sinto, ainda, que este espaço é dela. Por isso para mim é tão difícil viver aqui.

Voltar a falar com ela foi bom e talvez necessário. Contei sobre o novo romance. Disse que no começo avançava a passo firme, mas que aos poucos tinha perdido o ritmo ou a precisão. Por que não o escreve de uma vez?, me aconselhou, como se não me conhecesse, como se não tivesse estado comigo ao longo de tantas noite de escrita. Não sei, respondi. E na verdade não sei mesmo.

O que acontece, Eme, penso agora, um pouquinho bêbado, é que espero uma voz. Uma voz que não é a minha. Uma voz antiga, romanesca, firme. Ou então é que eu gosto de estar no livro. É que eu prefiro escrever a já ter escrito. Prefiro permanecer, habitar esse tempo, conviver com esses anos, perseguir longamente imagens esquivas e examiná-las com cuidado. Vê-las mal, mas vê-las. Ficar aqui, olhando.


Alejandro Zambra.
libertar é uma palavra imensa cheia de questionamentos e dores. encarar o significado semântico na prática é uma lição de amadurecimento espiritual que poucos conseguem entender. quando eu olhei para a minha relação com J., percebi o quanto que a tradição e bons costumes haviam nos ensinado que o amor bom não é livre, mas carregado  de dependência. amar J. foi, sob o disfarce do romantismo, não conseguir viver sem ele e sofrer um processo de despersonalização gradual até  me transformar lentamente no espelho daquela pessoa amada. lógico que essas reflexões vieram somente depois de algumas sessões de terapia e  noites regadas a álcool e sofrimento. foi difícil assimilar a mutilação que a minha identidade sofria, porque para enxergar isso eu precisava aceitar que eu consentia. e entender a aceitação implicava em mudanças. eu simplesmente não podia chegar ao desamor tão fácil, isso só chegaria depois. 

preciso deixar claro que nem sempre as coisas foram assim. J. era extremamente bom comigo, até que um dia não conseguiu mais ser. eu nunca consegui ser completamente boa com J., porque sempre pesei as entregas que a nossa relação exigia. com o passar dos anos, tudo foi ficando denso e o riso fácil virou coisa rara. tudo em J. me irritava, o seu esforço em alcançar a perfeição e a sua inabilidade com o inesperado o transformou em uma pessoa totalmente insuportável aos meus olhos. as minhas manias tortas certamente irritavam J., pois eu percebia o seu esforço em tentar corrigir as minhas falhas. a partir daí, brigas desnecessárias começaram a fazer parte dos nossos diálogos e o desrespeito mútuo instalou-se em nós. 

depois veio a culpa cristã de não poder renunciar a quantia de amor ofertada. eu me sentia totalmente desajustada por não conseguir conversar com pessoas comuns sobre as insatisfações que aquele relacionamento me causava, e  J. não mediu esforços ao jogar a responsabilidade do fracasso em meu colo. a verdade é que J. também não conseguia ser feliz e presenciar a minha decadência enaltecia, de alguma forma, a sua vaidade. existia entre nós um desejo frequente de deixar o outro, mas todas as tentativas mostraram-se infrutíferas e pouco contundentes. acho que nos enganamos demais nos significados das coisas. é lamentável, eu sei, mas a nossa incompetência de lidar com o abandono nos fez reféns de nós mesmos.

não consigo imaginar nada mais triste do que os meus últimos dias ao lado de J. restava pouca lucidez para que eu conseguisse ser uma mulher inteira. hoje, por mais que eu tente encarar o sofrimento pessoal como um caminho necessário, prefiro viver como se não houvesse a mínima possibilidade de nos encontrarmos novamente. não consigo desejar rever aquele homem com quem vivi por tanto tempo, mas não carrego raiva. não é isso. essa só foi a maneira que consegui prezar pela minha saúde mental.

"eu te quero por inteira, mulher". acho que foi essa a última frase que escutei antes de desabar. depois de um porre fenomenal, eu já não conseguia distinguir o que era real ou fantasia. quando J. me deixou, parei pra pensar naquilo que eu chamava de nossa vida - o que certamente só existia na minha mente tão congestionada. vezenquando eu conseguia concretizar aquele sofrimento moralista em uma única lágrima e assumir em meio a um soluço e outro que eu não sabia o que fazer com aquele pedaço de amor que me restara. eu não sabia o que fazer para esquecer J., então tive que aprender a viver me esfolando. depois de tanta coisa machucada e desgastada, eu desenvolvi uma maneira de congregar toda a minha insatisfação em um único ato. veio-me a ideia: primeiro sofre-se, depois escreve-se por vingança.
escolhi crisântemo para o mês. queimei incenso pela casa, improvisei rezas, lavei o corpo pensando na alma e sei lá se fez alguma diferença. desde que J. passou para o lado de fora daquela porta, fiquei a pensar nos meus atos desesperados e nessa preguiça toda que toma conta dos cômodos. ainda havia muito de J. por aqui. seus LP's estavam espalhados por debaixo da cama, no canto do sofá, sob a poltrona e até no banheiro. era um esforço terrível encarar a mudança. e por mais que eu tentasse arrumar as coisas de J. e deixar um novo feixe de luz entrar, essa cobrança interna não me parecia nada natural.

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contra aquela manhã de fevereiro, coloquei a  música da chuva que ele cantava tão mal, mas que meus ouvidos já estavam tão habituados. o movimento das coisas. quando dei por mim, estava a dançar em círculos como se o ritmo normal da vida estivesse naquele batuque e nada fosse capaz de tirar a poesia dali. meus pés simplesmente não paravam e o meu peito crescia a cada respiração acelerada.  por algum absurdo, não me lembro de cambalear sequer uma vez. a felicidade gritava no estômago. foi quando decidi abrir os olhos e fitar com muita lucidez a casa ao meu redor. ela agora era minha, no entanto parecia um erro acreditar nisso. a casa era minha,  mas por motivos tão óbvios eu não sentia como se aquele espaço fosse meu. ao processar dos meus pensamentos, eu sentia cada sentimento murchar. subi lentamente as escadas, percorri os cômodos com minhas inseguranças e retornei exausta ao centro da sala.   J. ainda estava dentro do meu mundo e tudo o que meu olhar conseguia penetrar me dizia que ele ainda estava presente.



quando o conheci pensei que a nossa história poderia acabar em um  roteiro da Julie Delpy. o fato de ter nos conhecido em um festival musical de verão me deu o direito de passar longas noites fantasiando sobre isso. nos conhecemos em movimento, fizemos típicos roteiros românticos de casais recém-casados e por isso gostávamos de dizer que o nosso romance não seguia a lógica habitual dos acontecimentos. estávamos tão felizes que não pensávamos se as coisas faziam muito sentido ou se aquela direção era a correta. simplesmente havíamos decidido enfrentar os próximos dias com a naturalidade e coragem de quem quer viver.

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o sol saía lá fora e nós não tínhamos nenhuma preocupação em levantar da cama. lembro de como eu o  olhava como uma mãe olha o seu filho dormir. eu gostava de tê-lo assim, desprotegido e encolhido em meu ventre. ele acordava e se desfazia de sua pose fetal, me dizia "bom dia" e beijava a ternura dos meus dedos. eu o admirava e só pensava em amor. "todos os meus dias poderiam ser assim". e se eu, realmente, quisesse, seriam. eu só falava em amor, mas ainda  tudo estava tão contido dentro de mim.
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no primeiro momento que aterrisei os meus pés no chão, tentei me certificar de que aquele terreno era seguro. alimentei uma dúvida profunda sobre a verdadeira identidade daquele homem e estava irredutível a acreditar em sua existência. confesso que eu esperava secretamente que ele fosse se encaixar em algum esteriótipo. a cada encontro eu me preparava para isso, mas quanto mais fomos nos aproximando e eu fui aceitando baixar a guarda, ele foi demonstrando ser uma pessoa  totalmente distinta de qualquer outra que eu já conhecera. e aqui não faço diferenciação de sexo não, pois durante a nossa aproximação e as minhas quebras de paradigmas, jurei a mim mesma nunca mais repetir comentários e comparações sexistas. ninguém imagina quão difícil foi deixar qualquer tipo de pré-conceito para trás. sem eles eu estava desmunida e a única alternativa que me sobrava era compreender e confiar. 

em uma relação em que o medo do desconhecido e da total-entrega persiste, é muito comum nos defendermos antes de qualquer entendimento, porque qualquer emoção que faça nosso sangue pulsar de forma diferente também já faz tremer as pernas. às vezes eu tinha recaídas e tentava esconder o erros pessoais com frases prontas que qualquer pessoa comum usaria como conforto. talvez isso tenha me impedido de olhar para dentro e entender o que estava me machucando de fato. o que  faltava que me impedia de conduzir as coisas de forma saudável? o que  faltava que me fazia conduzir a minha vida de forma tão autodestrutiva? eu precisei de alguns anos  para ganhar a disposição de entender as minhas armadilhas internas, o que me deu certo senso de responsabilidade sobre as minhas próprias emoções e atitudes. o mesmo não sei se aconteceu com J. a intensidade da nossa aproximação desgastou o que um dia foi um roteiro bonito de filme e acusações injustas sobre a falta de racionalidade e o excesso de emoção do outro passou a fazer parte do nosso cotidiano. 

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todo final me emociona. choro sem parar por doze horas, durmo por três dias e bebo por tempo indeterminado. cada um desce do jeito que acha melhor, babe. era o que o amigo me dizia em tom de humor - e por mais que a gente fizesse piada e eu conseguisse abafar o grito com a  gargalhada, a queda nunca foi uma experiência confortável. doía cada parte. cada pensamento sobre ele doía e a a verdade era tão simples: J. não me pertencia, e digerir essa fala me parecia absurdamente errado e profundamente doloroso. eu o amava nos mínimos detalhes, mas não sei se o amava sempre. eu o amava somente em momentos como esse, quando já não fazia mais sentido algum e era tarde demais para tentar sofisticadas harmonias.  

solicito diariamente por uma intervenção divina. um raio de luz, uma janela batendo, qualquer sinal que me faça acreditar que, por mais que eu sinta o contrário, eu não estou sozinha. acontece que a vida tem pesado para o meu lado, boy. eu realmente sinto a falta de alguma coisa. ando muito completa de vazios e imensamente sem tempo para preenchê-los. sem eternidades, bem assim eu conceituaria. estou corroída por uma suspeita de que estou condenada a viver eternamente com este desconforto. e o que me assusta é saber que  'foi conscientemente que escolhi o exílio'. fiz o que tive que fazer e, de repente, pensando nisso, descobri que é tão duro constatar que sou muito comum com sucessivas perdas.


itálico de Raduan Nassar.
everything had shattered. everything had been gone away for good this time. and the feeling that was left couldn't give to my heart a normal beat. I was empty, as if my whole existence could be dissolved at a touch. and I had no longer control over my thoughts and emotions, they had all vanished before I could even save them. so I was standing there in my empty room, sitting on my unmade bed and staring at my own devastated face in the mirror when I started whispering a desperate pray  to any major force: please, lord, bring me back some emotion. make this life livable. make anything happen again.


eu meço no vento o passo de agora,
o próximo instante, eu sei, é quase lá.

L.Hermanos

"Kindness, kindness, kindness. I want to make a New Year’s prayer, not a resolution. I’m praying for courage."

"Quero ser capaz de ficar sozinha, achar isso revitalizante – e não apenas uma espera."


S. Sontag.


I heard you say:
"I will not shame you today"


o amor calmo, tranquilo, que chega de manhã trazendo os cheiros de café e pão quente e que em um natural impulso te faz correr para a cozinha e sentar à mesa para mais um petit-déjeuner. o amor suave com cheiro de chuva e alma de domingo preguiçoso, insosso, sofá quente e televisão ligada. o amor passivo e banal que te deixa todas as noites deitar a cabeça no travesseiro sem preocupações e medos. o amor que não assusta, não sufoca e não faz tremer as pernas. o amor que já não dói mais, pois chega quando todas as energias já foram esgotadas e a batalha interior habitual é tentar aprender a viver. o amor  comunal, feito e refeito no cotidiano lado a lado de quem se ama.




acho que foi o ato de ter que constantemente partir que me fez descobrir tantas outras coisas novas, ou talvez simplesmente esquecidas, aqui dentro de mim. a cada partida eu me voltava para dentro na tentiva de encontrar alguma explicação para os nossos prolongamentos - ou alguma memória que me convencesse de que era necessário persistir.  ao revirar as memórias já tão bagunçadas eu revivia ideias solitárias, mas que eram minhas, somente minhas, e talvez por isso carregavam um sabor único de mistério e também independência. nas minhas memórias sofridas eu era capaz de lembrar de mim e das poucas coisas que faziam parte do meu íntimo. e quando o fazia, meu peito estufava de alívio por um dia ter tido a coragem de encarar  a profundeza do exílio e manifestar a explícita capacidade de lidar com as incompletudes sem medo.


por nada nesse mundo eu confessaria ser também mais uma dessas mulheres desesperadas. antes disso eu sumo. me deixa quieta, vai. estou cansada e sem fé para os próximos dias. não adianta me procurar, deixar mensagem na caixa eletrônica ou pedir para o tiozinho da portaria avisar que você passou por aqui. para entender o abismo é preciso virar pelo avesso, então me dê espaço. o caminho nunca pareceu tão longo e a verdade é que ninguém te acompanha até o final.  a gente tem que abraçar a solidão, entende? familiarizar-se com as incompletudes, as falhas e os domingos a base de comida congelada. porque tudo isso se repete. é ciclo e é vida.




An honorable human relationship — that is, one in which two people have the right to use the word “love” — is a process, delicate, violent, often terrifying to both persons involved, a process of refining the truths they can tell each other. It is important to do this because it breaks down human self-delusion and isolation. It is important to do this because in doing so we do justice to our own complexity. It is important to do this because we can count on so few people to go that hard way with us.

Adrienne Rich.
"happiness is hard to find. Real, true happiness. you got to try by taking risks without second-guessing yourself or worrying about the consequences. otherwise, you'll never really know."
já havia decido não criar mais expectativas sobre as relações humanas, pois as experiências me ensinaram que você pode até estar ali, ouvir, dar suporte, se fazer presente e útil, mas nada disso garante que receberá o mesmo quando precisar. a reciprocidade dificilmente será uma lei, e alguns até diriam que esse é o risco e a delícia de se envolver. mas hoje, em um dia normal como qualquer outro - talvez com a pequena diferença de que não acordei tão disposta e vibrante assim - eu me surpreendi com a graça das pequenas coisas. entrei em sala preparada para mais uma aula. deixei os problemas para fora da escola e tentei mostrar ali o melhor de mim. depois de alguns segundos de aula fui interrompida: "Professora, alguma coisa aconteceu com a Sra., o que fizeram com o seu sorriso de sol?". respirei fundo, fingi um sorriso e tentei desconversar retomando o plano de aula com naturalidade. a aula terminou e achei que tinha me livrado dessa, cheguei a pensar "segura o choro e o coração, Sara". segunda turma. mais uma vez tentei agir com naturalidade, mas fui interrompida novamente. droga. "tia, posso chegar perto de você?", "claro, chega mais perto", falei meio pressentindo o que viria. "eu vou te dar um abraço, tia, porque é isso que eu faço com a minha mãe quando percebo que ela está triste". depois dessa foi quase impossível conter o sentimento.
"escute, o que vou dizer, Rosa, e não se esqueça nunca do que ouvir. nós tivemos tudo. tem gente que passa a vida toda esperando o que nós tivemos e nunca consegue. eu tive você e você me teve." 

Uma Mulher Vestida de Sol de, Ariano Suassuna.
“all photographs are memento mori. to take a photograph is to participate in another person’s (or thing’s) mortality, vulnerability, mutability. precisely by slicing out this moment and freezing it, all photographs testify to time’s relentless melt.” - Sontag, Susan.












reinaugurando velhas paixões.
fotos: Sara Castillo


do vazio
do silêncio
da ausência.

foto: why is it so hard to let go?



estou tão sozinha que faço carinho em minha sombra e ensaio conversas que nunca serão pronunciadas. não sei quando as coisas começaram a ser assim. talvez por descuido ou conveniência deixei de enumerar os fatos, gravar os rostos, soletrar os nomes. a minha inquietação foi responsável pelo extermínio. me foge a razão dos dias  e ainda assim a sensação do tato só pode ser uma só. esse frio não me intimida, penso alto. é preciso insistir no contraponto, meu deus. dobro os joelhos, acho que estou imensamente cansada, rezo, mas por algum motivo não sou atendida. 




Custa tanto ser uma pessoa plena, que muito poucos são aqueles que têm a luz ou a coragem de pagar o preço. É preciso abandonar por completo a busca da segurança e correr o risco de viver com os dois braços. É preciso abraçar o mundo como um amante. É preciso aceitar a dor como condição de existência. É preciso cortejar a dúvida e a escuridão como preço do conhecimento. É preciso ter uma vontade obstinada no conflito, mas também uma capacidade de aceitação total de cada conseqüência do viver e do morrer.

Morris West.
It's a terrible love and I'm walking with spiders
It's a terrible love and I'm walkin' in.





"we met at the wrong time. that’s what I keep telling myself anyway. maybe one day years from now, we’ll meet in a coffee shop in a far away city somewhere and we could give it another shot."

eternal sunshine of the sptoless mind. 


um caderno de viagem, lições de vocabulário e a saudade da pátria que ficou.

amiga, 

o mundo tá um caos. não há nada lá fora que nos sustente. tá tudo tão careta, chato, parado, sem sal. meu deus, "eu só não desmaio nesse exato momento porque não tem espaço físico suficiente", mas te confesso alto, meus olhos saltam de espanto ao perceber que existe mesmo gente que se dá ao luxo de arriscar tudo. um dia ainda vou lá, coloco a cara pra fora e grito pro mundo alguma coisa insana, sabe deus o que. um dia ainda faço uma revolução, dentro de mim. mas por enquanto fico aqui do outro lado te falando as coisas que passam pela minha cabeça tão perturbada. sei lá, acho que estou ficando cada vez mais louca ou no mínimo mais bêbada. tá sendo difícil equilibrar as coisas, essa tal de lucidez. pra quê? o pior de tudo é que me sinto cheia. amor, sabe? me esvai pelos dedos. muita revolta também. indignação e desconforto. sei que um dia vai chegar a hora em que não será mais possível levar com a barriga, a alma também cansa e o corpo, inevitavelmente, reage. de forma drástica ou não. mas por agora fica essa coisa meio xoxa, nem frio e nem quente, fácil de engolir que nem papinha e você sabe que eu não gosto de nada que não tenha considerável nível de complicação. o que me maltrata é esse momento in between.

conversa que tive com a amiga, há alguns anos atrás,
depois de pensar sobre a vida e ler o blog da Cris Lisboa (grifos dela).

foto: eu
título: sobre o tempo e os seus efeitos

tenho passado boa parte do meu tempo pensando em como eu cheguei até aqui. me olho no espelho e me sinto tão diferente daquela guria que deixou Cuiabá, há seis anos atrás, em busca de grandes realizações. lembro da segurança que carregava no peito e da inspiração que tinha de sobra. não sei porque, mas acho que eu passava a impressão de que seria uma daquelas pessaos com "carreira invejável" e "currículo exemplo" e acho também que, de alguma forma, eu acreditava nisso. ou ao menos queria muito. hoje eu não sei se consigo enxergar o futuro assim, não sei mais se consigo ser tão exata. mas sei que não me sinto mais a mesma. na verdade, eu me sinto tão diferente, tão estranha e, ao mesmo tempo, tão simples. é engraçado perceber que a menina-da-cidade-grande-com-cara-de-cidade-pequena, que pulou de canto a canto, foi encontrar conforto em um país estrangeiro e só aí, então, percebeu que em toda a sua vida o seu verdadeiro sonho não passava do mais batido clichê: amar e ser amada. o que vem depois disso tornou-se mero detalhe que a vida prometeu encaminhar. amém.


das ignorâncias que impedem o amor florescer: "não conhecer a si mesmo, não entender o amor, não saber onde o amor vai dar, não enxergar a natureza do objeto amado."
eu não faço a mínima ideia do que estou fazendo da minha vida. mas, pela primeira vez, não me sinto sozinha.
adeus, primeiro amor.



o amor, o amor de verdade, chega no fim. quando a mágoa incrustou na pele e virou proteção. quando o canal lacrimal já secou. quando a olheira não some. o amor, o amor tranquilo e forte chega quando acaba a esperança, chega na completa falta de possibilidade. no meio da memória falhada, da crise existencial. o amor, aquele que é para durar e carregar um para sempre só se apresenta quando, sem chances de surpresa, você não acredita que vá existir qualquer tipo de sentimento para te arrebatar. o amor, o amor que fica, chega na hora precisa, na hora que você, sem saber, ama para entender o que é a vida.

por Camila Pereira M.
23 dias de Suíça e só agora fui me tocar e me incomodar com o fato de estar em um país em que não entendo nada da língua e não conheço quase ninguém. e isso chega a ser até engraçado, porque eu tenho a mania de conversar com todo mundo, sobre qualquer coisa, em qualquer lugar.  às vezes chego até a inventar histórias só para puxar papo ou fazer daquele momento seul mais interessante, veja só. mas aqui, não sei porquê, só as trocas de sorrisos entre um "danke","hallo" e "guete morge" já têm sido o suficiente para a minha cota de interação social.

e daí que eu fui pensar nisso só agora, ou melhor, exatamente no momento em que me perdi do namorado na montanha de Grindelwald. estávamos esquiando, quando, em questão de segundos, um sumiu do outro na bifurcação da trilha. eu até pensei em voltar o caminho e pedir informação em mímica, mas o cenário era absurdamente lindo que decidi ficar ali perdida por algumas horas. só eu e o silêncio da montanha.  me emocionei, de verdade.
frio na barriga, palpitações aceleradas, mãos geladas, insônia e uma constatação: é amor.

hoje acordei e meus olhos se abriram para o teto. fiquei um bom tempo ali encarando o profundo branco sem pensar em absolutamente nada - porque nada absolutamente pensado eu seria capaz de suportar naquele momento. então quando menos percebi, eu tinha lágrimas caindo
.
.
.
vezenquando sou surpeendida por um mezzo-sentimento de inquietação que não consigo entender. é como se as coisas não estivessem mais no lugar e, involuntariamente, eu soubesse que a verdade, querida, é que nunca estarão. de repente, tudo fica mais pesado e eu vou perdendo, aos poucos, o controle sobre a minha vida. então percebo que já deu.  tudo tem o seu prazo mesmo e a transitoriedade das coisas sempre foi algo inerente à minha condição cigana. é preciso deixar tudo isso para trás, babe, antes que seja tarde demais. é preciso recomeçar. de qualquer forma, de qualquer lugar. porque, inevitavelmente, a gente segue.

se for para falar a verdae, ser honesta comigo mesma, assumir diante do espelho, hoje eu entendo que,  nesse intervalo de 6 anos, não deixei os lugares que vivi por puro capricho. fui deixando para trás um a um por tristeza, desconforto, desajuste. e eu não sei se um dia esse combo de sentimentos vai passar.
a gente se entrega nos pequenos gestos.
"só preciso de alguns abraços queridos, a companhia suave, bate-papos que me façam sorrir, algum nível de embriaguez e a sincronicidade: eu e você não acontecemos por uma relação causal, mas por uma relação de significado, que ainda estamos trabalhando."

Caio F.